Dois anos
Patricia Haddad | Thu, 31 July, 2008 | 09:18 AMSexta-feira, 28 de julho de 2006. Devido à falta de coisas para fazer no trabalho, tirei uma folga. A crise da Varig já estava insustentável. Fazia uns 25 anos que não acreditava mais no Papai Noel, mas continuava apostando que o governo faria alguma coisa para evitar que a primeira tentativa de se usar a Nova Lei de Falências desse errado. Papai Noel, pelo menos, nunca me deixou na mão.
À tarde, visitando uma tia com meus pais, recebo uma ligação. Uma colega de trabalho me avisava que nosso setor tinha acabado e que eu não deveria comparecer ao meu plantão de final de semana. “Tem certeza?” Sim, ela tinha certeza. O “Patrão” em pessoa tinha feito o doce comunicado. Deveria apenas me apresentar na segunda-feira para formalizar a minha demissão. Quem estava lá na companhia naquela sexta-feira já estava sendo despedido. As próximas 48 horas duraram quase 11 anos e meio.
Segunda-feira, 31 de julho de 2006. Tremendo, chorando muito, com uma raiva e uma tristeza descomunais, assinei aquela folha de papel que me dizia que meus serviços não era mais necessários. O crachá, que por 11 anos e meio ostentei orgulhosa no peito, foi devolvido como se nunca tivesse me pertencido. Deve ter ido parar em alguma caixa, junto com os outros milhares igualmente entregues pelos meus colegas, e todos devem ter sido destruídos. Incrédula, via pela primeira vez uma verdadeira demissão em massa como jamais achei que pudesse acontecer. Por baixo, cinco mil pessoas de uma mesma empresa desempregadas de uma hora para a outra.
Os dias seguintes foram horríveis. Quem tem querosene de aviação na veia como eu sabe que não foi fácil aceitar o fim da Varig. Ninguém conseguia acreditar que a Varig, aquela empresa com quase 80 anos de tradição, aquela que era sinônimo de segurança estava chegando ao fim. Não era possível que a tal da Nova Lei de Falências estivesse dando errado. Estava. Por mais que insistam em dizer até hoje que deu certo, eu afirmo: deu errado. Quem mandou achar que este (des)governo faria mesmo alguma coisa? O Coelhinho da Páscoa, pelo menos, nunca esqueceu meu ovo de chocolate.
Na imprensa só se ouvia o governo falar que haveria uma (milagrosa) solução de mercado. As demais empresas absorveriam os passageiros e os funcionários. E assim vivemos meses de confusões nos aeroportos. O caos se instalou de tal forma que até hoje viajar de avião é motivo de insegurança. “Será que vai sair na hora?” Nunca se sabe. O setor se degringolou para, provavelmente, nunca mais voltar ao que era. As congêneres, em particular as duas maiores – Tam e Gol – não deram conta do recado.
Para piorar, em 29 de setembro daquele ano um avião da Gol foi atingido por um Legacy. O boeing caiu, matando 154 pessoas. O jatinho aterrissou momentos depois com pequenas avarias na asa. Até hoje não há uma resposta definitiva sobre o caso, não se sabe o quê exatamente provocou a tragédia. O que se sabe, que veio à tona com este acidente, é que nosso controle aéreo está defasado, que nossos controladores são praticamente analfabetos em inglês, que há uma grande área de sombra na região da Amazônia e que a posição do transponder nos Legacys não é a mais apropriada. Os pilotos americanos continuam sendo os algozes. Mais fácil culpar os yankees, né?
A aviação brasileira continuou decaindo. O que um dia foi motivo de orgulho para todos os brasileiros agora era motivo de chacota. Tudo dava errado. Não houve ninguém que conseguisse atender à solicitação do respeitabilíssimo presidente desta república, que queria “prazo, dia e hora” para o fim do caos nos aeroportos. Não era para menos. A experiência de quase 80 anos tinha sido descartada, jogada no lixo como se não prestasse, como se não valesse nada.
Como se uma tragédia não tivesse sido suficiente para se aprender alguma lição, um avião da Tam pousa, não consegue parar e se choca contra um prédio da própria empresa. Quem seriam os culpados? Os pilotos, claro! Imagina se este (des)governo tem alguma responsabilidade! Claro que não. Ninguém inspeciona nada, ninguém controla nada, ninguém se importa de a pista de Congonhas é curta demais para suportar um Airbus lotado em dia de chuva. Segue-se uma palhaçada generalizada, CPI aqui, CPI ali, Anac lá, Infraero acolá, Tam em lugar algum, mas, enquanto isso, culpa-se os pilotos. Voltarão para se defender?
Os ex-funcionários seguiam desempregados e sem receber seus direitos trabalhistas. Seriam absorvidos pelo mercado, tinha vaticinado o (des)governo. Não é preciso muita inteligência para saber que se Lula prometeu, não era para acreditar. Mas o pior mesmo foi ver o (des)governo do Partido dos Trabalhadores deixar tantos trabalhadores na mão. Até hoje não representamos absolutamente nada para aquele senhor que se apoderou do planalto central. O ilustríssimo só se interessa por aquilo que pode ser re$olvido com uma bol$a e$mola qualquer. Não é o nosso caso.
Lá se vão dois anos. Muitas pessoas tentam refazer suas vidas de outras maneiras. Nem todos conseguem. Quem passou da barreira dos 40 está penando para conseguir uma oportunidade nesta terra onde quem se orgulha de ser semi-analfabeto chega à presidência da república, enquanto é preciso ter o segundo grau completo e disputar com gente com diploma universitário para varrer rua. Nestes dois anos vi o MST pintar e bordar com a anuência do ex-sindicalista. Vi outras tantas coisas já narradas neste blog. E tive cada vez mais certeza de que nunca antes na história deste país tivemos tanto cinismo e cara-de-pau a serviço de meia-dúzia de barbudos hipócritas, verdadeiros ditadores civis.
Por agora, chega. E olha que nem citei os aposentados do Aerus. Por isso mesmo, aviso que este texto poderá sofrer modificações ao longo do dia. Todas serão identificadas.
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Pati,
Eu acompanhei isto tudo que descreveu :(, muito de perto e tu sabe disto.
Na minha família pelo menos duas pessoas foram atingidas por isto tudo.
Um destes é um primo que era Cmdte de 777, com mais ou menos 30 anos de RG, aproximadamente 30 mil horas de vôo. Ficou como funcionário até o ano passado,ahhh, claro, sem salários. Por mais de um ano e alguns meses, não viu um único centavo ser depositado em sua conta bancária.
Se ele não fosse do tipo precavido e econômico, não teria sobrevivido. E ele estava quase se aposentando, mas sem nenhum centavo do que por todos estes anos foram “depositados” no AERUS, nem pensar em ficar só como aposentado do sensacional INSS.
No final de 2007 ele “entrou” para a laranja, e como experiência segundo o constantino e sua trupe não valem, e sim a “antiguidade” na empresa, ele é (até onde eu sei) apenas um co-piloto de um guri qualquer :(, que quem sabe daqui uns 30 anos tenha a mesma “milhagem” no comando de uma aeronave.
Enquanto isto este @#$@$# safado do @#$#$¨%&@# que é o desgovernante do país, fica a falar merda atrás de merda (parece rastro deixado por uma carroça…).
[]’s indignados
Alguém que não soube cuidar do próprio dedo não pode cuidar de um País.
Isso é resultado de obrigar qualquer semi analfabeto que só não é analfabeto por saber escrever o nome a votar.
Um sujeito desses vota no primeiro que lhe enrolar com uma boa conversa e no primeiro que lhe der uma camiseta de brinde.
Olha, Pat, ainda tenho muita fé que essa corja imunda, que apoderou-se de Brasília, ainda vai sair daqui a chutes e pontapés. Esse dia há de chegar! Caso contrário, não vou acreditar em mais nada. Nem em Deus!
Realmente é uma pena o que fizeram com a Varig – a estrela do Brasil, mas é apenas mais um caso reflexo da cultura brasileira a sempre darb um jeitinho para as coisas, fingir que nada está errado, pessoas que se apossam do poder sempre pensando em tirar proveito da situação, enfim.. o retrato de gerações que vão se repetindo…
Porém, é preciso fazer algo… as eleições estão aí e em quem iremos votar, como estamos educando nossos filhos e conversando com nossos amigos?
A aviação é um ambiente que lhe proporciona um crescimento grandioso pois estamos em contato com diversas culturas, lidamos com quem nunca viajou de avião e está ali vindo do sertão pernambucano para SP somente porque o Gugu pagou a passagem para o cidadão dar audiência e passar mico na TV, como políticos e “estrelinhas” arrogantes e egoístas… Enfim, vamos começar a dar mais valor as nossas verdadeiras estrelas… antes que tantas outras virem cadentes e sumam neste céu de azul anil?!?
Anyway… Parabéns pelo Blog e pelo tema…
Meio Aéreo – Comissários de Vôo
Tudo muito bem dito.
Afinal, a verdadeira VARIG, VARIG, VARIG morreu, deixou de existir.
Pois, esta que aí está não honra o nome, nem ao menos o estilo e a estirpe da qualidade e do pessoal de então. Varig era sinônimo de eficiência, de competência e de rigidez nos horários.
Isso faz parte do passado. Todas as companhias aéreas de hoje, no Brasil, são desqualificadas, lamentavelmente, em todos os sentidos. São verdadeiras caça-níqueis. Querem grana!!!
O brasileiro em trânsito por qualquer país entrava num endereço da Varig, se sentia em casa, com refinamento, cafezinho, bom papo e simpatia. Como já disse aqui, os endereços da Varig mundo afora eram como escritórios da diplomacia brasileira no exterior. Aliás, mais eficientes que muitos consulados brasileiros…
E os almoços e jantares a bordo?
Até mesmo um lanche. Era supimpa!
Hoje é barrinha de cereal de 50g. Ou melhor, mudaram, para 20g.
Pobre país.
Não recuperaram a Varig – os senhores do Poder – porque não quiseram. A empresa detinha mercado nacional e internacional. E se não salvaram quando deveria, é porque por trás do imbróglio tinha outros interesses…
Como depois ficou bem mais visível, não?!
Abs
[alterado]
E agora? Quero ver se essa pessoa insignificante que se apoderou de Brasília vai ter o desplante de ajudar às Aerolineas Argentinas. Pode-se esperar tudo de um mau carater!
Essa foi a minha melhor leitura sobre o “caso Varig”, apesar de nem um pouco ligado em problemas políticos e aéreos do nosso Brasilzão de meu deus…
E aproveitando o comentário da Lourdes, pra tirar a corja a pontapés depende de nós.
E como somos acomodados, né? :P
Patricia,
Não sou aposentada da Varig, mas fui durante toda minha vida usuária daquela empresa maravilhosa cuja lembrança ainda está na nossa memória. Dos jingles dos comerciais (estrela brasileira no céu azul…iluminando..de norte a zul…)…que me emocionavam na infância, até os últimos vôos que tomei à trabalho, dentro e fora do país e já adulta…a Varig é um case exepcional de branding bem sucedido….mas construído sem a ciência do marketing da construção das marcas…que aliás, naquela época nem existia.
Acabei chegando ao seu blog movida pela procura por um comissário, hoje possivelmente aposentado, que esteve na ativa pelos anos 70 e 80. Seu nome é Torgo. Fiz contato com vários aposentados da Varig (Jim Pereira, Katia izabel) que o conheceram, mas que perderam contato com ele. Por acaso vc foi contemporânea a ele? Saberia me informar de algum contato que poderia me dar a dica de como contatá-lo? Agradeço quem puder ajudar. Meu email para contato é rosicordeiro@uol.com.br
Obrigada
Rosi Cordeiro