S.O.B.R.E.T.U.D.O

Sobre tudo o que vejo; sobretudo, o que me provoca…
  • Blog
  • Links
  • Arquivos
  • Auto-entrevista
  • Contato

A volta dos que não foram

Patricia Haddad | Thu, 15 March, 2007 | 08:13 PM

Há pelo menos uns 2 anos uma incógnita me ronda a cabeça. Assistindo a tudo o que este Congresso tem feito, vendo os escândalos, os mensalões, as CPIs que terminam em pizza, as outras que nem conseguem ser instaladas, não há como não me perguntar por que o povo não faz nada. Por muito menos (sim, muito menos, se compararmos TUDO o que aconteceu no país no primeiro mandato de Lula), Fernando Collor foi derrubado da Presidência da República. Multidões de caras-pintadas foram às ruas, vestindo preto, gritando palavras de ordem. O povo venceu. Collor sofreu impeachment.

Eu era uma jovem aluna da Uerj. Lembro-me do burburinho na universidade porque uma grande marcha passaria por ali dentro de pouco tempo. Levando o assunto na maior curtição, lá fui eu com alguns amigos fazer parte daquela passeata. Política? Eu não sabia o que era. Sabia, sim, que muita gente estava sofrendo com o confisco da poupança. Nada além disso. Minha presença naquela manifestação anti-Collor era mais por diversão do que por vontade de protestar. E não tenho vergonha de confessar isso. Eu não era, nem de longe, essa figura que hoje em dia cansa os dedos por aqui.

Não faz muito tempo, eu ainda tinha um certo orgulho de ter participado daquele movimento. Ainda que o impulso tenha sido o da mera diversão, o de participar de algo inusitado, no final das contas eu tinha feito parte de algo que ficou marcado na história do país. Collor tomou doril da vida política graças a uma enorme mobilização da qual eu fiz parte. Era ponto pra mim. Fazia quase parte do meu currículo. Dentre minhas experiências marcantes, por pouco não pus lá “participei do movimento dos caras-pintadas”.

Hoje não penso assim. Hoje eu consigo entender porquê aquele movimento aconteceu e porquê agora o povo permanece inerte. É que o povo NUNCA se movimentou mesmo. Aquelas passeatas, aquelas manifestações, as palavras de ordem não partiram do povo, tal como se entende povo (eu, você, seu vizinho e todos aqueles que pagam impostos corretamente e sofrem com os desmandos do (des)governo). Tudo aquilo que vimos nas ruas e que levou ao impeachment do Collor foi fruto da oposição de então, agora situação. É claro, óbvio e ululante! Os protestos tinham muito mais a ver com a ideologia do tal partido de esquerda do que com qualquer sentimento de repúdio à política de Collor, uma vez que é notória a vocação de tal partido para algazarras. E, hoje, eu lamento por ter sido manipulada e ter participado daquilo.

Escrevo isso agora porque, neste momento, Collor está fazendo seu primeiro discurso como senador recém-eleito no plenário. Diversos parlamentares abriram mão de suas falas e retiraram suas inscrições para que Collor tenha mais tempo para falar. Ele, consternado, agradece e segue em frente. Lembra, com voz ofegante e lágrimas nos olhos (e nariz fungando) de quando partia definitivamente da presidência em um helicóptero. Pediu ao piloto que sobrevoasse determinada cidade porque estava preocupado com o andamento de certa obra. O pedido não pôde ser atendido porque não havia combustível suficiente no aparelho. Ali, naquele momento, ele se conscientizou de que a presidência não pertencia mais ao povo (sic).

Até o momento, nenhum dos senadores presentes falou do nosso dinheiro que ele apreendeu. Ninguém falou da abertura dos céus brasileiros para companhias estrangeiras. Esta medida de Collor causou enormes prejuízos à aviação comercial brasileira, que não tinha como competir com os baixos custos principalmente das companhias americanas. As nossas três grandes empresas da época eram Vasp, Transbrasil e Varig. As duas primeiras se foram num piscar de olhos. A Varig agonizou, foi acusada de ter sempre gasto mais do que podia, sem que ninguém lembrasse deste detalhe já mencionado, sua gestão foi comparada à da Tam, empresa próspera mas que não era grande nem fazia vôos para fora do país na época e que portanto não sofreu com a abertura proporcionada pelo então presidente.

Sinceramente, não sei mais o que pensar. Fernando Collor está de volta e todos o estão recebendo de braços abertos. Lula foi reeleito e deste nada preciso dizer. A CPI do apagão aéreo não consegue ser instalada por motivos óbvios e repugnantes. José Dirceu continua por aí, e é até colunista (!) do JB, assim como José Sarney. Os trabalhadores, em breve, terão apenas meia-aposentadoria em vida – a aposentadoria plena só conseguirá ser atingida post-morten. O governo federal quer cortar pela metade o fornecimento de medicamentos a doentes crônicos e transplantados – e sobre isso farei outro post em breve. Fernando Collor está de volta e todos o estão recebendo de braços abertos. Lula foi reeleito e deste nada preciso dizer.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Compartilhe:
  • Print
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Rec6
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • Twitter
Categories
Política, Varig
Comments rss
Comments rss
Trackback
Trackback

« A dor da ausência Coitadinhos dos ministros »

4 Responses to “A volta dos que não foram”

  1. Roberto Haddad says:
    Thu, 15 March, 2007 at 09:38 PM

    Oi Pati, faço minhas todas as palavras do sexto parágrafo.
    Realmente, gostaria de saber qual a justificativa dele (agora) para o confisco da nossa grana.
    Está correto. Não havia como suportar tantas companhias aéreas (5 ou 6) voando para o Brasil contra somente uma
    Brasileira “A NOSSA VARIG”. Não digo que este tenha sido o motivo de tudo que aconteceu com a VARIG, mas
    que foi o pontapé inicial, ha, isso lá foi sim. Sabe de uma coisa ? Vou passar um email pra ele fazendo estas
    perguntas.

    bjs Dum

  2. Fatima says:
    Thu, 15 March, 2007 at 11:40 PM

    Patricia, entendo sua indignação! Assisto a tudo isso muito de perto.
    O problema todo é q o povo brasileiro sofre de problemas da memória. Não lêem a Constituição Federal, não entendem o significado do Congresso Nacional, do conceito de cidadania, enfim, preocupam-se apenas com o futebol, carnaval e qdo haverá novamente um feriadão.
    Os problemas socias se agravam, a saúde do sistema de saúde torna-se cada vez mais precária, a dengue avança nas capitais (as pessoas não se preocupam, nas grandes cidades, principalmente, em combater a dengue ou mesmo recolher as fezes dos seus cães nas ruas???), lê-se cada vez mesmo (ou qdo obrigado) e escreve-se muito mau….como podemos pensar num povo q reclame mais q seus direitos????
    O movimento a q vc se referiu foi de um populismo tamanho.
    Em Bsb à época, as pessoas se dirigiram ao CN por simples farra. Eu estava lá e vi de perto. Era uma grande festa para muitos e um ato sério para uma minoria. Não se deram ao trabalho de buscar uma compreensão qto àquele ato………
    Lógico, se não for meia duzia de cães e gatos que venham chamar à discussão qto ao que hoje pude presenciar (assisti ao pronunciamento do ex-presidente), ……acusações de justiças na década de 90, como se roubar o Estado ou nosso bolso fosse uma tremenda injustiça. Qtos infartaram pelo confisco???…é patético!!!
    Eu acredito ainda na juventude de hoje. Acredito ainda que o conceito de cidadania virá à tona, e essa juventude irá brigar por cada criança que morre de fome, que sente por não ter um leito, que não sabe escrever o proprio nome! Falo isso porque se a gente não acreditar em algo, é melhor…deixa pra lá!
    Sabe, outro dia elogiei o seu blog. Não sei se vc viu.
    Achei bem interessante suas exposições….acho q se a longo outras “Patricias” surgirem, expondo idéias, indignações, outras “Fatimas”, “Joses”, “Ricardos”, “……” surgirão e se tornaram agentes multiplicadores dessas indignações………..a palavra tem força. E a palavra hoje pode fazer com q as pessoas parem de ver tudo isso com se estivesse num grande teatro, assistindo a um espetáculo no esquema 0800…..
    Continue fazendo o q vc hj faz com bastante propriedade e determinação.
    Acredito que o “encanto” de suas ideias, do seu gesto podem tornar as “vitorias” mais significativas e as “perdas” mais fáceis de serem suportadas!
    Um beijo p vc!

  3. Cejunior says:
    Thu, 15 March, 2007 at 11:51 PM

    Patricia, Fernando Collor está no lugar certo: no Senado Federal, um local que reúne um bando de políticos decadentes, completamente desvinculados de qualquer interesse popular. Seu objetivo é, durante oitos anos, acumular riqueza e poder.
    Vou ficar velho e ainda não entendo para que serve este Senado Federal e suas figuras patéticas!

  4. Lourdes says:
    Sun, 18 March, 2007 at 12:21 PM

    Sabe por que o mulla está presidente? Porque, infelizmente, não temos oposição! Tá tudo vendido, tudo comprado!
    Deixaram acontecer… E esse povo que o reelegeu tem mais é que sofrer mesmo!

Leave a Reply

Click here to cancel reply.

CAPTCHA Image
CAPTCHA Audio
Refresh Image










View blog authority

PageRank Checking Icon

Archives

Categories



rss Comments rss valid xhtml 1.1 design by jide powered by Wordpress get firefox