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O Cristo errado

Patricia Haddad | Tue, 31 July, 2007 | 09:31 PM

Que o Brigadeiro José Carlos Pereira andou falando um monte de abobrinha - ou pepino, como ele prefere – nos últimos tempos, disso ninguém duvida. No entanto, começo a achar que o problema do presidente da Infraero resume-se à sua forma de expressão. Ele está sendo sabatinado na CPI do Apagão Aéreo na Câmara e suas respostas estão sendo extremamente sensatas. Concordo com muito do que ele está respondendo sobre a questão do acidente com o Airbus da Tam e critico apenas alguns pontos. Acho que estão pegando o Cristo errado nesta história. Enquanto ele está ameaçado de demissão, Zuanazzi e cia. continuam impávidos em suas funções.

Sei que as reais causas do acidente só virão à tona com a revelação dos dados das caixas-pretas. No entanto, toda a investigação feita até aqui aponta muito mais para um problema mecânico, seguido possivelmente por uma falha do piloto. Tudo perfeitamente possível. No entanto, confirmadas estas causas, duas declarações serão ouvidas ao extremo: 1) “sabia que iam culpar o piloto porque ele já morreu”; 2) “viram só, seus opositores de uma figa? O governo não tem culpa de nada!”

Na verdade, as frases acima já pipocam em comentários de blogs por aí, especialmente no blog do Ricardo Noblat, no Globo. Muitos que não suportam o governo PT se apressaram em dizer que podiam apostar que a culpa iria recair sobre o piloto, uma vez que ele não poderá se defender. Eu, que não preciso escrever textualmente aqui que não compactuo com este (des)governo, fui contra este pensamento. Não se pode achar que o piloto só morre em um acidente quando não é ele quem erra e que, quando erra, seguramente não vai morrer, a fim de ser corretamente punido.

Por outro lado, o fato de acreditar muito mais em uma falha mecânica e/ou humana não quer dizer que eu tire qualquer responsabilidade do governo. Muito pelo contrário! Continuo acreditando que este (des)governo tem muito a ver com este acidente, ainda que indiretamente. Se a situação do setor aéreo brasileiro chegou ao ponto que chegou, com aeroportos saturados, outros ociosos, vôos atrasando constantemente, outros sendo cancelados, companhias aéreas pretando péssimos serviços, outras encolhendo na marra, a responsabilidade, e até mesmo a culpa, é do governo federal.

Não acredito mesmo que as condições do asfalto da pista ou a falta de grooving tenham contribuído para o desfecho trágico do episódio com o A320 da Tam. No entanto, o tamanho da pista pode ter sido determinante para transformar em acidente fatal algo que poderia ter se resumido a um incidente. Em 1998, um A320 da Philippine Airlines, também sem um dos reversos, só parou após se chocar contra barracos de madeira no final da pista de 2.100 metros. Três pessoas morreram atropeladas. Em 2004, fato semlhante ocorreu em Taipei. Ninguém se feriu. A pista tinha 2.600 metros, mais 160 metros de área de escape.

Onde eu quero chegar? Simples. Se a pista fosse maior, o piloto do Airbus da Tam poderia ter conseguido parar. Se houvesse área de escape, o avião poderia ter girado à esquerda, andado um pouco mais e, enquanto isso, o piloto teria tempo para tentar outro tipo de frenagem. No entanto, ao virar à esquerda (por motivos que aguardam esclarecimentos), tudo o que um avião encontra em Congonhas é uma avenida e construções. O que o governo tem a ver com isso? Tudo.

Congonhas não está no meio da cidade. A cidade é que está em torno do aeroporto. Na medida em que as prefeituras anteriores de São Paulo foram permitindo que a cidade avançasse em direção ao aeroporto, os governos estaduais de então deveriam ter intervindo. Na omissão destes, cabia aos governos federais frear as construções em torno de Congonhas. Nada disso foi feito. Paralelamente, a demanda de passageiros foi aumentando, os aviões foram aumentando, a sede de lucro a qualquer preço não encontrou limites, o mercado se concentrou. Tudo com a benção do governo federal, que por meio dos seus diversos órgãos de fiscalização, nunca se opôs a qualquer tipo de operação em Congonhas.

Certamente alguém irá dizer que a questão é anterior ao governo Lula. De fato é. Mas a crise na aviação se instalou no governo Lula. Antes dele, acidentes deste tipo não ocorriam. Antes dele, voar no Brasil era extremamente suguro. Antes dele, o DAC fiscalizava o setor e não havia caos nos aeroportos. Mas veio a era Lula. Sai o DAC, entra a Anac da noite pro dia. O projeto era antigo, do tempo de FHC, mas não estou criticando a existência de uma agência reguladora, e sim a sua necessidade neste caso e, principalmente, a maneira como foi criada. A Anac, que havia anos esperava para nascer, veio à luz em um piscar de olhos, com diretoria indicada pelo governo Lula. A única correlação que se pode fazer entre seu presidente, Milton Zuanazzi, e a aviação basileira, é que ele é gaúcho tal qual a Varig. Ah, sim, ele trabalhou com turismo. Só. Nada mais em seu currículo o capacita para exercer a função.

A falta de credenciais para o cargo não é exclusividade de Zuanazzi, o protegido de Dilma Rouseff. O restante da diretoria da Anac é composto por aliados petistas, como Denise Abreu, que já foi secretária de José Dirceu (com o perdão do uso da má palavra). Nem vou comentar sobre outros tantos “ocupadores indevidos de cargos” dentro do governo Lula. Estes já bastam. O omissão deles e, principalmente, do presidente desta república, já me causam náuseas suficientes. O pior é que muito provavelmente eles continuarão onde estão, não fazendo o que devem e fazendo o que não devem. Nós continuaremos pagando impostos e, de certa forma, pagando seus salários. A aviação brasileira continuará descontrolada. E nós continuaremos desgovernados.

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Aviação, Política
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« Ponto contra Pensei que todos os cumpanhêros estavam empregados »

3 Responses to “O Cristo errado”

  1. Ricardo Rayol says:
    Wed, 01 August, 2007 at 01:50 PM

    Se a pista te ou não a ver com o acidente é o de menos. O que se está demosntrando por aí é a incapacidade gerencial de uma cambada de mentecaptos alçados aos altos escaões por babação de ovo ou coisa pior.

  2. Roberto Haddad says:
    Wed, 01 August, 2007 at 06:03 PM

    Concordo plenamente com todos os comentarios que você faz sobre este triste episódio. Acho também que o Brigadeiro José Carlos Pereira acumula conhecimentos suficientes para exercer o cargo, não só da Infraero como principalmente da Anac. Ele é, sem sombras de dúvidas, profundo conhecedor, por força de sua formação, de assuntos aeronáuticos.

  3. Lourdes says:
    Thu, 02 August, 2007 at 02:26 PM

    Como vc diz, óbvio, que a culpa aí, no caso, não é somente do piloto. Muitos fatores, também, contribuiram e a mídia não está dando muita ênfase a esses outros fatores. E daí, que os petistas safados estão se aproveitando disso para tirar o sapo barbudo da reta. Os cretinos da base governista estão até comemorando a provável culpa do piloto… Nem os mortos respeitam mais! Inclusive, hoje, essa mulla nojenta ao dar uma entrevista a um jornal (não me lembro se foi a Folha ou o Estadão) teve a cara de pau de dizer que “não sabia” (como sempre!) que a crise aérea estava tão ruim. Isso é um escárnio, um deboche! É achar que todos somos retardados iguais a ele. Esse povinho idiota que votou nele não enxerga o mau caratismo desse sujeito. Vaiar é pouco! Ele tem mais é que levar um chute no traseiro e se mandar daqui! Por isso, dia 4, se Deus quiser, demonstrarei toda a minha indignação, raiva e revolta com toda essa esculhambação que o país está vivendo. Ah, vou me realizar… já posso até morrer…

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