JJ3054 – (quase) um ano depois
Patricia Haddad | Sun, 13 July, 2008 | 10:29 PMNa próxima quinta-feira, a tragédia com o A320 da Tam que fazia o vôo JJ3054 vai completar um ano. Na época, muito se falou sobre medidas drásticas que seriam adotadas, mas isso será assunto para um outro post. Agora eu quero falar sobre a matéria exibida agora há pouco pela Tv Record.
Pela enésima – porém não última – vez falaram que a manete direita, correspondente à turbina que tinha o reverso pinado, estava na posição errada. Ou seja: o piloto Kleyber Aguiar Lima, com quase 15 mil horas de vôo e 20 anos de Tam, não teria trazido as duas manetes para trás conforme os procedimentos de praxe. Erro primário demais para alguém tão experiente, não? Sem contar que havia ainda na cabine o co-piloto Henrique Stephanini Di Sacco, também com mais de 20 anos de profissão.
Ninguém cogita a hipótese de o equipamento ter falhado. O avião, que já tinha um problema (o reverso estava pinado!), pode não ter respondido ao comando do piloto. É importante lembrarmos que até o momento em que a aeronave tocou o chão tudo estava normal. Os procedimentos de aproximação foram corretos, tanto que o airbus entrou na rampa de pouso e tocou a pista sem problemas. Daí para frente é que tudo degringolou.
As manetes deveriam ser trazidas para trás. Isto faz com que os reversores sejam abertos e as turbinas, aceleradas. Do lado esquerdo não houve problema. Do lado direito o reverso estava travado, pois a Tam já havia detectado um defeito nele anteriormente. O A320 é programado para que com reverso pinado a turbina fique em ponto morto quando a manete é levada para trás. Pronto: na minha opinião, aqui ocorreu a falha.
Ninguém me tira da cabeça que este computador voador, que no lugar do tradicional manche tem um joystick, simplesmente ignorou o fato de o reverso estar inoperante e acelerou a turbina. Com o reversor fechado, o lado direito do avião “acelerou para frente”, quando o esperado era que ficasse inerte. Todos os outros parâmetros estavam acionados para que o avião, depois de aterrissado, parasse apenas com a frenagem provocada pela turbina esquerda – além, claro, dos freios aerodinâmicos, armados ainda em vôo, e do freio das rodas, acionados depois.
Resumindo tudo o que escrevi acima, se os aviões só voassem com 100% de suas condições técnicas este acidente não teria acontecido. A não ser, claro, que o problema tivesse ocorrido em vôo. Não foi o caso. Este equipamento da Tam estava voando havia alguns dias com problemas no reverso direito. “Mas o fabricante diz que pode voar assim por 10 dias…”, disseram representantes da Tam na época. Alguém pode me dizer o que acontece no 11º dia?
Consideremos, no entanto, que fosse realmente necessário fazer aquele vôo com aquele equipamento naquelas condições. O A320 é grande e estava lotado (tinha até um funcionário a bordo que não havia feito check-in, o que é um erro grave da empresa). A pista de Congonhas é considerada curta. Chovia pouco, mas chovia. Pilotos que tinham pousado antes haviam reportado que a pista estava escorregadia. O que teria sido mais prudente então? Alternar o vôo para Guarulhos. Simples assim.
Em uma pista mais ampla, mais longa e com área de escape tudo isso teria se resumido a um incidente. Haveria espaço suficiente para o avião perder velocidade aos poucos, haveria espaço até para um “cavalo de pau”, haveria pista suficiente para a aeronave percorrer sem encontrar um prédio pela frente. Isto só mostra que as autoridades deste país têm, sim, grande responsabilidade nessa tragédia. Avião grande, com seu peso máximo e com algum tipo de problema (como o reverso pinado) não deveriam pousar em pistas curtas e escorregadias. Simples assim também.








