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Único

Patricia Haddad | Wed, 15 August, 2007 | 09:46 PM

Xerife

Não sei dizer que tipo de sentimento Xerife despertou em mim. Amor, amizade, carinho, tudo isso. E tudo isso, na verdade, é muito pouco perto do que Xerife sempre foi para mim. A seu modo, sei que Xerife me amava. Pois quem ama, cuida. E Xerife sempre cuidou de mim apenas com seu olhar. Estes olhos doces sempre enxergaram dentro de mim, e sempre souberem me transmitir compaixão, alegria, solidariedade. Foram alguns anos estacionando o carro no posto e4m frente ao meu antigo trabalho e que era a sua casa.

Como um verdadeiro moleque, Xerife vez por outra se portava mal. Ainda que com voz “tatibitati” e chamando-o de “mininu”, tive que achar ruim com ele algumas vezes. Cansei de pedir para sair de trás do meu carro, pois eu precisava manobrar. Em outras ocasiões, ele quase engolia o meu dedo na hora de pegar os bifinhos que eu levava. O danado, como que sabendo que tinha feito coisa errada, se enfiava em sua caixa de papelão, me olhando de rabo de olho. Ou se escondia debaixo de um carro, mas deixando seu rabo – praticamente um espanador – do lado de fora. Só me restava rir.

Mas o melhor mesmo era o seu bom dia. Diariamente, Xerife me esperava desligar o motor do carro para se plantar ao lado da porta. Farejava minha roupa, o carro, sentava, me olhava, abanava o rabinho e eu quase podia ouvi-lo dizendo “tenha um excelente dia, amiga!” Quase sempre estava acompanhado de sua irmã de consideração, Natasha. Juntos me olhavam, aguardavam o bifinho, e depois pediam carinho. Durante o meu pior período na empresa, quando a crise da companhia era mostrada dia sim, outro também nos jornais e nas tevês, o olhar dos dois me transmitia uma certa cumplicidade, como se quisessem me dizer “estamos aqui, conte com nosso carinho”. Supervisores e gerentes eram capazes de chegar para trabalhar e sequer dizer um “olá”. Xerife e Natasha jamais deixaram de me cumprimentar e espantar um pouco da agonia que estava sendo aquele período de turbulência.

No dia 24 de março soube que Natasha tinha morrido. Fiquei muito triste, chorei muito, tentei me consolar lembrando que ela já tinha alguma idade. Custei a voltar ao posto. Não queria chegar lá e encontrar apenas o Xerife. Quando tomei coragem, encontrei este vira-latas legítimo cabisbaixo, olhando-me profundamente com uma tristeza que deixava claro: ele precisava me dizer que Natasha não estava mais ali. Em 23 de junho estive no posto e tirei várias fotos desse danado com as patas para o ar. Na hora de ir embora, ficou parado, acompanhando meu carro com o olhar, como sempre fazia. Hoje voltei ao posto. Acho que Xerife não se agüentou de saudades da Natasha e foi encontrá-la, no dia 9 de julho, em algum outro posto por aí. 

Voltei pra casa com as lágrimas escorrendo e uma certeza: Xerife foi ÚNICO. E ele sempre soube disso. 

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2 Responses to “Único”

  1. Rod says:
    Fri, 17 August, 2007 at 11:52 AM

    Poxa Pat, que triste. Mas ao mesmo tempo, que alegre, que feliz saber que eles foram tão especiais e te passaram tanta coisa boa que agora você pode dividir com a gente por aqui. O que fica são as lembranças e o aprendizado. Sim, porque como você disse em outras palavras, até os cães, tão “inferiores” a nós, conseguem nos ensinar justamente o que há de mais simples mas ao mesmo tempo mais importante no nosso comportamento e que anda tão esquecido: humildade, carinho e respeito. Eu que também amo animais peguei um pouquinho disso que você compartilhou com a gente e guardei aqui, como mais um pouco de “aprendizado animal”, que é tão bom!
    Lindo relato.

  2. Roberto Haddad says:
    Fri, 17 August, 2007 at 09:43 PM

    Filha, você sabe muito bem que eu e tua mãe, tambem gostavamos muito deles. Conforme o Rod falou aí em cima, estamos todos compartilhando este aprendizado juntos.

    Bjs. Teu Pai

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